segunda-feira, 31 de maio de 2010

Entrevista com Pedagoga sobre Comunicação


Uma pedagogia para os meios de comunicação – Entrevista


Por Roseli Fígaro

Aprender a ensinar e ensinar para transformar, eis as preocupações de Guillermo Orozco Gómez ao tratar do campo comunicação/ educação.

O professor doutor Guillermo Orozco Gómez, da Universidade de Guadalajara, México, pesquisador latino-americano dos processos de recepção dos meios de comunicação e da inter-relação comunicação/ educação, concedeu-nos entrevista exclusiva para essa edição. Orozco Gómez nos fala de sua formação como educador das camadas populares, da importância da obra de Paulo Freire em sua formação e de suas pesquisas com crianças e televisão, tema no qual trabalha desde seu doutorado, nos anos 80. Desse trajeto resultam publicações importantes que têm ajudado a fundamentar um campo de pesquisa em comunicação na América Latina. Ainda em 1998, Orozco Gómez e pesquisadores de diversos países, coordenador por Klaus Jensen da Universidade da Dinamarca, publicam, em Londres, resultado de pesquisa internacional sobre a recepção que famílias de diferentes países fazem do noticiário internacional. Guillermo Orozco Gómez preocupa-se fundamentalmente com a educação para os meios e o papel da escola, e do professor frente às novas tecnologias da comunicação, principalmente a televisão. Ele vê a necessidade de a instituição escolar abrir-se para a multiplicidade da realidade, compartilhando com outras instituições sociais e tornando-se mais interessante para os alunos.

Revista Comunicação & Educação: Professor, qual a sua formação e quais as suas principais preocupações, hoje, com relação ao campo da comunicação?

Guillermo Orozco Gómez: Minha formação começou como comunicador e educador popular, na cidade de Guadalajara, em 1972. Enquanto tentava fazer algo relacionado aos meios de comunicação nas zonas marginais, nas favelas da cidade de Guadalajara, estudava no último ano da universidade. A partir dessa experiência de trabalhar em uma Organização Não-Governamental – ONG, percebi que era necessário conhecer pedagogia. Fui, então, fazer Mestrado em Pedagogia na Universidade de Colônia, na Alemanha, de 1975 a 1977. Regressei e estive trabalhando mais como educador e pesquisador da Educação do que da Comunicação. Entendi, porém, que minha preocupação principal era a Comunicação, por isso fui fazer Doutorado em Educação, mas em combinação com Comunicação. Assim,  continuei ligado em Educação na Universidade de Harvard, EUA, onde fiz minha tese de doutorado sobre Socialização múltipla da televisão: a família e a escola das crianças da educação básica.

Voltando em 1985, dediquei-me à pesquisa de recepção. A hipótese principal em minha tese era de que a influência educativa da televisão se manifesta em qualquer tipo de programa e não-somente nos de progamação instrutiva. Estudei com os idealizadores de Vila Sésamo, que eram meus orientadores em Harvard, mas não me interessou a perspectiva de fazer programas educativos e sim entender a influência educativa da televisão não educativa, que me parecia o problema maior não só na América Latina como em qualquer lugar.
Minhas preocupações sempre estiveram, portanto, vinculadas ao educativo. Um dos autores que me inspirou e motivou foi Paulo Freire. Estudei toda a sua obra quando estava na Universidade.

Como educador, tive de fazer um pouco o tipo de educação inspirado na metodologia de Paulo Freire que, afinal – independentemente de toda a filosofia tão clara que sustenta sua metodologia – é uma proposta de intervenção pedagógica. Isso me possibilitou a condição de efetivar um trabalho altamente consciente durante esses anos – mais de vinte – e esse era muito do significado que Paulo Freire passava: poder transformar. E me pareceu cada vez mais importante tratar de pesquisar para transformar, para propor essa intervenção – não somente para conhecer, mas para propor um eixo de ação sobre o objeto de estudo.

Creio que essa foi uma preocupação fundamental, que se manteve durante muitos anos, e que de alguma maneira influenciou a escolha do estudo do processo de recepção dos meios, pois trabalhando com os telespectadores, a partir da recepção, pode-se verificar essa interação deles com os meios. Outros pesquisadores trabalham sob outros ângulos: com as indústrias culturais, com os sistemas de comunicação e obtêm conhecimento para intervir em outro nível. Mas se o objetivo foi modificar e ao mesmo tempo influir no processo educativo das pessoas, a pesquisa de recepção é uma porta de entrada. Uma vez conhecendo os receptores e suas interações, poder problematiza-las no sentido de Paulo Freire, tratar de melhorar essa interação para benefício dos próprios sujeitos. E por aqui creio que encontrei esta maneira de vincular o educativo com o comunicativo: pesquisar para intervir e propor estratégias que transformem e modifiquem as interações dos sujeitos com os meios. Esta é minha principal preocupação.

Interessou-me, então, trabalhar com aqueles segmentos que estão envolvidos sobretudo com a educação de crianças, como a escola, os professores, a família, a casa como cenário de convivência cotidiana. Por que creio que a interação com a televisão não é um processo que se dá no vazio, no ar; é concreto. Manifesta-se, principalmente, através da família e, no caso das crianças, também na escola. Parecia-me que, tendo a preocupação de intervir, não podia somente tomar as crianças e tratar apenas de falar com elas, de fazer quaisquer tipos de oficinas. Era preciso uma estratégia educativa a partir da escola e uma estratégia pedagógica a partir da família. É por isso que me interessou investigar e também trabalhar conjuntamente com a comunidade familiar e escolar. E justamente a minha tese de doutorado tem a ver com a interação entre a escola e a família, relacionada à interação das crianças com a televisão, num contexto em que essa interação está mediada pela escola e pela família. É preciso trabalhar com as três instituições, a família, a escola e a televisão, para entender a dinâmica que se gera nos processos de recepção e as possibilidades para uma intervenção pedagógica nestas áreas.

RCE: Esta sua postura teórica requer um trabalho metodológico de abordagem dessas três instituições bastante extenso. O senhor está desenvolvendo algum trabalho neste campo atualmente?

Orozco: Sim, no projeto de pesquisa em que estou trabalhando, abandono um pouco, por um momento, as crianças como centro, como sujeito importante e retorno a família em si como uma organização, como unidade metodológica. E o que estou tratando de fazer é ver a recepção específica em um gênero televisivo: a questão das notícias. Como estas notícias são percebidas em termos individuais por cada um dos membros da família, como são conversadas e enunciadas pela família e, finalmente, como são percebidas pela família. E, em seguida, quais são os usos que a família dá às notícias.

Aquilo que me interessa é focar primeiro só no gênero e não na televisão, como foi minha primeira pesquisa com as crianças, e no gênero notícia. Porque me parece que uma das possibilidades de modificar a cultura política das pessoas em geral é ver se as notícias estão servindo como um estímulo para que os telespectadores tomem uma posição política frente aos fatos que estão vendo na televisão, de que maneira a televisão está proporcionando estes reencontros dos fatos que são notícias, os quais, de alguma maneira, estão definidos como os mais importantes.  Como isso está sendo percebido e como as pessoas estão usando isso para informar sua cultura política e, eventualmente, para uma participação considerável.

Interessa-me conectar a televisão como fonte de notícias, mesmo com todas as subversões na representação da realidade, com a unidade familiar, tomando a família como unidade de apropriação primária da televisão; verificar qual a percepção e o uso que os membros da família fazem da informação para sua participação ativa como cidadãos. A premissa é ver como, cada vez mais, as notícias falam aos telespectadores como sujeitos passivos, buscando entreter, divertir os telespectadores, dando-lhes espetáculos.

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